Sexta-feira, Dezembro 18, 2009
Lula e a sauna
Copenhage acaba hoje e o mundo não mudou. É claro. A COP-15 "terá como resultado um texto sem força de lei, com metas enfraquecidas de redução das emissões de CO2, sem instrumentos de financiamento, sem meios de verificação das ações ambientais nos países emergentes", escreveu o jornalista Andrei Netto no ótimo Blog da Cop, no site do Estadão. Ou seja, "The sauna non stop", como bem lembrou meu amigo carioca, Rodrigo Freitas. E, apesar da sauna sem fim a que vai chegar o planeta, Lula mandou bem no discurso apaixonado e coerente. Emocionou até o europeu mais marrudo. Vale assistir.
Quarta-feira, Dezembro 16, 2009
Vale Tudo
Cássia Kiss só tem 52 anos. E isso não é ironia. Quatro filhos, três casamentos, mais de 20 novelas, bulimia, bipolaridade, o assassinato de Odete Roithman. Ainda tem fôlego? Então desça o mouse e tome um tiro desta mulher que saiu de um cortiço para se tornar um dos maiores nomes da TV brasileira
Texto publicado na edição # 95 da Tpm. Veja mais fotos aqui.
Pergunte para o seu namorado. Um dos primeiros peitos não maternos que ele viu na vida pode ter sido de Cássia Kiss. Era 1989 e os seios da atriz apareceram em horário nobre. A função era social, ensinar as brasileiras como fazer o autoexame de prevenção ao câncer de mama. “Meus peitos eram a oitava maravilha do mundo”, brinca. Há um ano, mais uma vez os peitos de Cássia Kiss causaram polêmica. Foi quando ela revelou, numa entrevista à Marília Gabriela, que dava de mamar para o filho de 4 anos. Comentários, piadas de mau gosto e análises freudianas não faltaram na época.
Cássia Kiss é mesmo uma mulher de peito. Tanto que ultimamente ela tem declarado, nunca antes com tanto orgulho, ser “a mulher mais feliz do mundo”. É que, há um ano e três meses, conheceu, em um aeroporto, o médico e psicanalista João Magro. Apaixonada, terminou uma relação de 12 anos com o jornalista Sérgio Brandão, com quem teve dois de seus quatr
o filhos. Trocou alianças com o novo par em setembro e, desde então, é em João e na família que ela está focada. Para que esta entrevista saísse, foi preciso marcar duas baterias de conversa, já que na primeira a atriz praticamente só falou do novo amor.
Sem rótulos
Cássia nasceu em São Caetano do Sul, Grande São Paulo. Filha de uma dona de casa e de um mecânico, saiu de casa aos 15 anos para se tornar uma das grandes representantes da telenovela brasileira. Em seu currículo estão 19 novelas, 7 minisséries e 13 filmes. Foi Lulu de Roque Santeiro (1985), Leila de Vale Tudo (1988), Maria Marruá de Pantanal (1990), Guiomar de Um Só Coração (2004), Maria da minissérie JK (2006) e, recentemente, fez sucesso como a beata Mariana, da novela Paraíso. “É legal ver que ninguém me rotulou. Não sou a vilã, não sou a mocinha, não sou o bandido, não sou a velhinha.” No cinema fez, entre outros filmes, Bicho de Sete Cabeças (2001), Meu Nome não É Johnny (2008), Chega de Saudade (2008) e acaba de ganhar o prêmio de melhor atriz coadjuvante no Festival do Rio pelo filme Os Inquilinos (2009).
Aos 52 anos de idade e 31 de carreira, depois de quase uma década longe do teatro, voltou ao palco sob a direção de Ulysses Cruz. Zoológico de Vidro, de Tenesse Williams – em montagem superelogiada pela crítica especializada –, está em cartaz até dezembro, no Rio. O diretor é amigo da época em que Cássia fazia teatro amador, era macrobiótica, discípula do guru indiano Osho, comia apenas dois potinhos de arroz integral por dia e morava numa quitinete sem cortinas, tamanha a dureza financeira.
Hoje a atriz vive num apartamento espaçoso na Barra da Tijuca, no Rio, com o marido e os quatro filhos: Joaquim Maria, 13, e Maria Cândida, 12, de sua relação com o publicitário José Alberto Fonseca; Pedro Gabriel, 6, e Pedro Miguel, 5, do casamento com o jornalista Sérgio Brandão. São agregadas também a empregada de Cássia e sua filha de 15 anos. Na sala de estar, dois sofás de pano em diferentes tons de verde, vasos de orquídeas brancas, um skate largado no canto e quadros de artistas brasileiros como Heitor dos Prazeres e Iberê Camargo. “Cansei de todos, quero trocá-los por quadros de flores”, diz. Enquanto toma seu misoshiro e bebe suco de uva orgânica, Cássia, à vontade em sua casa, abre o peito para a Tpm.
Tpm. Como é que você, com as rugas naturais da idade, lida com as fórmulas mágicas de beleza que impregnam as revistas femininas esta época do ano?
Cássia Kiss. Nunca tive isso. Sou uma mulher de 52 anos e nunca fui prisioneira de nada, de padrões, de jeito nenhum. Admiro o caminho que eu escolhi. O caminho de envelhecer é bonito, quero envelhecer com dignidade.
Você é contra plásticas?
Não tenho nada contra quem faça, apesar de achar que muita gente acaba estragando o próprio rosto. Quanta vezes você não ouve “ah, aquela pessoa era tão bonita. Ih, um olho fecha o outro não”? Sei que me veem e dizem “por que ela não puxa um pouquinho aqui?”. Porque prefiro fazer personagens de que digam “como ela está bonita com essa personagem”. Se eu for contar a história de uma mulher bonita, vou fazer de tudo para fazer uma mulher bonita, estar com um belo cabelo, uma pele linda, um corpo bacana, um figurino legal.
Você tem dito em entrevistas que depois de 26 anos de depressão e bipolaridade é a mulher mais feliz do mundo. Quem era a Cássia bipolar e o que mudou nela?
Ser bipolar é perder o controle. Você perde a paciência num nível mais agudo com os filhos, por exemplo. Quando vê está sacudindo a criança, falando mais alto. Vira meio bicho, sabe? É uma coisa que amedronta as pessoas. Aí volta e quer se desculpar, mandar flores, pede perdão, chora. Repeti isso muitas vezes. Um medicamento e acompanhamento evitam que isso aconteça. Mas tomar medicamento não é o fundamental. Importante é o ambiente familiar. É ele que te torna doente.
Como assim?
É a primeira vez que estou tendo uma família, que vivo o que estou vivendo com meus filhos. Só com medicamento, e com um ambiente familiar feliz, que eu consegui [sair da depressão]. Você está naquele buraco exatamente por causa do ambiente infeliz, doente. Essa semana a gente estava brincando de pique-alto com as crianças, que é você subir em algum lugar alto. Quando me dei conta o João [marido] estava subindo no sofá de sapato. Falei: “Porra, João. Qualé? Tira o sapato, a gente está destruindo a casa”. Foi com tanto humor, em outros tempos eu poderia perder o controle. Ele me provoca para eu ter uma reação legal, não ficar puta. Estou casada com um homem que cuida. Esse é o verbo de um relacionamento diferente dos outros, cuidar.
Como era o ambiente familiar “doente”?
Minha mãe foi junkie. Eu apanhava pra cacete. Tudo era “olha aqui quando você chegar em casa!” [mostrando a palma da mão no alto]. E não tinha jeito, apanhava. Podia demorar três horas pra voltar pra casa de medo, mas chegava uma hora que falava “deixa eu voltar para apanhar logo e aí acaba”. Era chinelada, depois ia para o banho cheia de marca na bunda, na perna, toda fodida. Mas, tudo bem, você abaixa a cabeça, fica quieto e pensa “ai, já passou”.
Você era muito difícil quando criança?
Não é ser muito difícil, era uma geração em que as mães foram educadas assim e elas educavam assim também. Me lembro da minha mãe me dando um cacete quando eu tinha 5 anos, era cacete mesmo. Você pensa que eu já não enfiei a mão na Maria Cândida e no Joaquim? Claro que enfiei. Quer saber se me arrependo? Pô, caramba, completamente! Se pudesse voltar no tempo... É que tenho certeza de que não ficou nada, não dá para as crianças se lembrar em: “Pô, mãe, você me bateu”.
Você acha que as crianças perceberam a diferença de uns tempos pra cá?
Nossa! Uh! Meus filhos não precisam ter um pai só, eles podem ter pais. O João tem que ser pai deles também, discutir, educar. Tenho 52 anos e já ouvi : “Pô, você não tem mais idade para recomeçar. Que história é essa de arrumar uma outra pessoa na sua vida?”. Olha que loucura, que bobagem! Não é recomeçar, é um renascer mesmo. Nós tivemos uma oportunidade de começar as coisas direito. Se os casais funcionassem assim, se os casais fossem as pessoas principais na família... Estávamos reparando isso no aeroporto. A esposa chega de viagem, dá um beijinho de leve no companheiro, mas a festa toda é pra criança. Está errado! Mesmo porque os filhos crescem, vão embora.
É mais difícil criar menino ou menina?
Menina. A Maria Cândida é mais difícil. Quando estão só os três meninos tá maravilhoso. Chegou ela... puf! Maria Cândida quando está em casa vale por dez. É uma loucura. Ela é muito parecida comigo. Entende tudo, é rápida. Não tem muita paciência, não. Quando você está indo colher o milho ela já fez o bolo. É geniosa. O que eu tenho aprendido com ela, e o João tem me ajudado, é que quero destruir a imagem da mãe chata.
Ela tem essa imagem de você?
Acho que tem... Não quero ser a mãe que fica brigando “vai escovar o dente, vai fazer o seu dever, vai para o quarto”. Gostaria que eles não me chamassem nem de mãe. Por mim me chamariam de Cássia. Quero ter a relação de ser humano, poder ajudá-los sem ser a mãe chata. Não gosto do que a minha mãe passou pra mim, sabe? Meus filhos jogam futebol dentro de casa. Meu colchão custou R$ 10 mil, vou deixar eles pularem em cima da cama? Claro que eu vou! Quero mais é que eles pulem! Os quatro, mais meu marido, mais eu, mais quem couber em cima da cama pra ficar pulando. Me lembro quando eu pulava em cima do colchão da minha mãe escondido...
Como foi sua infância em São Caetano?
Morávamos num cortiço, num quarto-cozinha. Nasci em casa, parto normal. Os quatro filhos ela teve em casa. Era interior, passava carroça, apesar do asfalto com paralelepípedo. Uma vida muito simples. Ia pra escola a pé e sozinha, era longe, 2 quilômetros.
Sua mãe é viva?
Sim. Mora em São Caetano e continua tendo uma vida muito simples. Meu pai faleceu e ela mora sozinha. Também tem um transtorno mental, mas se medica. Na verdade eu herdei. Essa coisa veio da minha vó, foi pra minha mãe, pra mim e eu preciso ficar muito atenta se foi pra minha filha pra poder tratar rapidamente.
Como é a relação com sua mãe?
Nos falamos todos os dias. É bonito ver que quando a gente amadurece perdoa e é perdoado. Eu perdoei minha mãe, minha mãe me perdoou. Saí de casa muito jovem, com 15 anos. Apanhei bastante e chega uma hora que você não quer mais viver isso. Ela disse: “Olha, prefiro que você vá cuidar da sua vida agora”. Fui porque eu já trabalhava, cuidava das minhas coisas. Me lembro que falei: “Eu posso levar minha cama?”. Ela falou: “Pode”. Levei uma cama e um jogo de lençol. Só. Não levei mais nada. Fiquei um bom tempo sem falar com ela, uns quatro anos sem dar notícias para ninguém da família.
Vocês duas brigavam muito?
Nós brigávamos muito, muito, muito. Não era pouco, não. Não sou uma pessoa muito fácil, pelo menos não na época. Era muito dona do meu nariz. Fui morar na casa de um casal de amigos músicos, em São Caetano do Sul. Depois fui para São Paulo e aluguei uma quitinete lá no centro, na Santa Cecília, e fiquei por ali fazendo teatro. É um período que é difícil falar porque foi muito solitário. Foi um período de depressão. Em São Paulo conheci um cara que me viu fazendo uma peça, a gente começou a namorar e eu fui com ele para o Rio. Depois de sete meses separei e fui cuidar da minha vida. Já tinha 22 anos.
E como eram seus amigos em São Paulo?
Adorava meus amigos, a cultura da rua foi muito importante pra mim. A gente discutia e lia muita coisa. Fumava muita maconha. Era uma gente que falava uma língua que eu não conhecia, calava minha boca e ficava atenta para poder aprender com eles. Me enfiava em todas as coisas que achava que pudesse colaborar para o meu desenvolvimento. Antes de sair de casa, com 14 anos, fiz parte de um núcleo de convergências socialistas. Nossas reuniões eram secretas, a gente bebia cachaça, não tinha dinheiro para comprar um vinho. Me lembro de pular a janela de casa pra minha mãe não sentir o cheiro da cachaça que tava na minha boca. Senão ia dar o maior pau.
Você falou de maconha, as drogas tiveram algum papel de mudança na sua vida?
Usei chá de cogumelo e maconha. Quando vi que tinha que cair fora dessa história eu caí sozinha. Ninguém veio dizer que é uma roubada. Se bem que não acho nada demais em maconha, apesar de saber que eu não posso usar por causa do meu transtorno. Não devo usar e não uso.
Você não parece se sentir velha. O que diria para as pessoas que talvez se achem velhas com 35, 40 anos?
Eu não sou velha e não tenho muito tempo pra pensar sobre isso. Tenho quatro filhos e preciso ter boa condição física porque é um rojão. Se a gente está a fim de educar nos moldes que queremos, precisamos ter gás para estar junto com eles, brincar, correr. Precisa fazer muita musculação, caminhar, fazer muito alongamento, muita flexão. Precisa ter braço pra aguentar. As crianças me trouxeram muito vigor, a minha condição física hoje é muito boa. E isso não tem nada a ver com as rugas que tenho, com o meu cabelo branco. Estou com 52, o Miguel está com 5 anos, e até os 62 eu tenho que estar bombando.
Teme morrer?
Agora não quero morrer. E não quero que o João morra. Estamos nos cuidando para poder viver bastante. Pelo menos até os 80 anos a gente quer estar bem. Você acha que tenho vergonha de sair na revista Caras com meu marido? Não! Querem me fotografar? Fiquem à vontade. Porque vão fotografar o lado bom. Me impressionam muito os colegas que se escondem, que não têm um cotidiano como qualquer pessoa.
Então paparazzo não te incomoda?
Qual é o melhor instrumento de trabalho para uma atriz? É a vida. Preciso estar na vida, fazer as coisas simples do dia a dia, pra contar as histórias preciso vivê-las. Vou ao supermercado, dali vou passar no banco, depois pego as crianças na escola. Se eu não tenho uma vida assim como é que vou ser atriz, como é que vou trabalhar?
Você disse em entrevistas ano passado que amamentava seu filho de 4 anos e causou certo burburinho. Por quê?
A grande maioria das pessoas que criticaram não sabe o que é amamentar uma criança até os 4 anos. Você desenvolve um afeto que é uma delícia. Um menino que é skatista, com capacete e skate no braço e vem mamar. É divertido pra ele, pra mim, é meu filho mais afetuoso e o mais macho, viril, que enfrenta tudo. Tenho foto na rua dele me pedindo peito. Só parei porque quando dormia ele serrava o dente e o bico do meu peito ficava lá dentro. Falava: “Agora fodeu, né? Ele arrancou o bico”. Tinha que enfiar a mão e abrir a boca dele para poder tirar o bico lá de dentro.
Manoel Carlos disse em uma entrevista à Tpm que foca suas tramas no universo feminino porque mulheres têm “menos pudor para confessar casos de insucessos”. Você não parece ter pudores para falar da sua vida.
Nunca uso estratégia para falar de mim, para dar entrevistas. Não me permito uma mentira. Não me permito chegar atrasada no meu trabalho e falar “furou o pneu do meu carro”. Não! “Gente, tava namorando meu marido. Vocês me desculpem. Vi que eu estava atrasada, mas não consegui.” Já fiz isso duas vezes na TV Globo. E olha que eu sou caxias, não chego atrasada. A verdade te dá uma coisa muito importante: liberdade.
Você passou 30 anos com depressão e bipolaridade até recorrer a medicamentos. Tinha preconceito com os antidepressivos?
Nunca. Como é que você vai negar a medicina? Conheci uma pessoa que não vacinou os filhos contra pólio por uma questão de ideal. Não é um absurdo? Eu não tomei medicamentos antes porque não assumia que tinha uma doença.
Mas durante um bom tempo você viveu um estilo de vida bem alternativo. Foi macrobiótica, vegetariana, discípula de Osho...
Já fiz dez dias de jejum absoluto, sem comer nem beber. Fiz uma dieta que passei 50 dias comendo uma tigelinha de arroz integral ao meio-dia e outra às seis da tarde. Não tinha dinheiro, precisava sobreviver e queria me manter equilibrada. Essas experiências me fizeram perceber que é legal ter autocontrole. Você não pode ser radical. Nem tanto alopatia, nem tanto homeopatia. Eu não como carne vermelha, mas hoje no meu prato tem galinha caipira, peixe, ovo caipira. Como arroz integral todo dia.
Onde você morava na época da macrobiótica?
Numa quitinete onde o pouco que ganhava trabalhando na TV Educativa do Rio ia para o aluguel. Dormia num colchãozinho, tinha meia dúzia de peças de roupa no chão, três livros, uma escova e uma pasta de dentes, uma panelinha de pedra e um fogão de duas bocas.
Acha que essas suas experiências com jejum e macrobiótica contribuíram para desenvolver a bulimia, que você teve por 13 anos?
Não. A bulimia é outra história, uma questão emocional que não tinha nada com essas outras coisas que fazia para me equilibrar. E nem para ser magra, até porque eu não era gorda. A bulimia veio por causa da minha falta de afeto, da minha solidão. Entrava num restaurante e ia para o banheiro. Saía toda inchada, vermelha, com o olho lacrimejando. Você enfia qualquer coisa na sua garganta para botar aquilo pra fora. Machuca a garganta, sangra. É uma merda. Quem entra nessa tem que dar um jeito de sair. Eu saí sozinha, sem ajuda e sem dizer pra ninguém. Parei quando fiquei grávida, aos 38 anos, do meu primeiro filho, o Joaquim.
Como era a rotina de uma bulímica?
Ia comprar uma torta e comia ela toda, depois botava inteira pra fora. Não satisfeita, comprava outra e botava ela inteira pra fora de novo. Repetia isso várias vezes ao dia. Evidentemente longe de pessoas, morei durante muito tempo sozinha. Ninguém nunca percebeu nada. A pessoa com a qual eu me relacionava não sabia. A bulimia é dramática. Quem padece disso tem que pedir ajuda, porque vai desenvolver uma doença complicada.
Há uns cinco anos, quando você ainda era casada com (o jornalista) Sérgio Brandão, estava bem mais magra. Por quê?
Cheguei a 47 quilos. É você estar comendo sem efeito, se deixando consumir. O buraco, a tristeza... é tudo tão grande que vai te consumindo, vai comendo tudo dentro de você. Você sabe que está naquela situação e não consegue sair.
Você está no seu terceiro casamento. Tem medo de cair na mesmice?
Quem te falou que eu casei três vezes? Tá louca, mulher? Eu nunca casei. É a primeira vez que eu caso. Diz o João que meus filhos são do divino espírito santo [risos].
Numa entrevista que deu há um ano, parecia plena em relação ao casamento de 12 anos com o Sérgio Brandão.
Eu achava que estava casada, mas aquilo não foi um casamento. A gente não morava na mesma casa, não éramos plenos. Tenho certeza de que casando eu estou agora, o verbo é no gerúndio. Casando todos os dias. Sou mulher dele, parceira, estou junto do João o tempo todo.
Como você o conheceu?
No aeroporto, ele se aproximou de mim, eu nem convidei e ele sentou do meu lado. Falou que era médico, psicanalista. No dia seguinte, estava esperando para pegar um avião para Belo Horizonte. Ele apareceu de novo, por coincidência. Me deu um poema do Fernando Pessoa e, chegando a Belo Horizonte, me ofereceu carona. Não aceitei. Passou uma semana e ele me telefonou num domingo, oito da manhã. No fim da conversa ele disse: “Você é visível?”. Eu disse: “Sou”. Ele me convidou para a gente se encontrar no Jardim Botânico no domingo seguinte. Dez da manhã estava lá, liiinda. Começou a chover, começou a esfriar, eu falei pra ele: “Estou com frio”. Acabou a história [risos]. Nós nunca mais nos separamos.
Aí você terminou sua relação anterior?
A história anterior acabei em meia hora. Incrível, né?
O João pediu sua mão em casamento?
Falei pra ele seis meses depois que nos conhecemos: “Vamos casar?”. Ele ficou emocionado, achou que eu não queria casar. O casamento foi um ano depois do dia em que a gente se conheceu, 3 de setembro. Foi bárbaro organizar as coisas, ir atrás de cartório, a nossa vergonha no cartório marcando a data, vendo a papelada toda.
Vergonha?
Eu com 52, ele com 57 anos... Nos divertimos muito no cartório. A pessoa que nos atendeu acabou sendo nossa cúmplice, nós voltamos duas vezes depois, era documentação que não ficava pronta, nossos filhos não podiam ser testemunhas, pedimos testemunha para as empregadas da minha casa. E mudei de nome, agora sou Cássia Kiss Magro.
Como era o sexo na juventude e agora?
Pô, você ainda não entendeu? Eu sou a mulher mais feliz do mundo! É emocionante porque o que a gente faz é amor. Trepar você trepa com qualquer um. A gente não trepa. Li uma pesquisa sobre quantos minutos durava uma transa entre pessoas que já eram casadas, que moram juntas. A estimativa era de, no máximo, 15 minutos. Fiquei chocada. O cara fica de pau duro, vira para o lado, come a mulher e tchau. A grande maioria não fala nem boa noite. É uma tragédia! Sou uma mulher de 52 anos, quero fazer as coisas ficarem melhores!
Existe muita expectativa de felicidade sobre essa sua relação com o João. Você ficaria bem sozinha? Bem sozinha?
Não, não, não. Posso viver sem uma série de coisas, mas sem o João não vivo e não tenho interesse em viver. Por isso que a gente está muito atento em cuidar um do outro. Estamos tão felizes que se bobear a gente atravessa a rua e é atropelado. O João é minha vida.
Então toda a sua felicidade está presa a uma pessoa, o João?
Não é toda a minha felicidade que está presa a ele. Eu tenho meus filhos. Mas só eu sei o que a presença do João tem proporcionado dentro da nossa casa. Como é que as crianças estão se comportando, o que elas estão sentindo. E a pessoa responsável por isso é o João.
Você faz terapia há 15 anos. Em algum momento já se sentiu dependente do seu psicanalista?
Não, não é dependência. Já vou bem menos, antes era toda semana. Vou ao psicanalista pra dizer como é que estou. E ao psiquiatra vou pra dizer “olha, o medicamento está assim, esqueci de tomar dois dias aconteceu isso”. É a parte química, como é que está funcionando, se a gente aumenta aqui, diminui ali, se troca aqui. Estou tão feliz que daqui a pouco estou vivendo sem eles.
Você fez duas minisséries seguidas, numa interpretava a mulher de um governador, ao lado de Antonio Fagundes, na outra uma senhora de 80 anos. Como fazer papéis tão distintos sem ficar marcada?
Em uma fazia uma mulher bonita que é a Mad Maria. A Duncan, que é a figurinista, me vestia feito uma rainha. Os meus vestidos eram de seda pura. Em seguida fiz o JK, onde apareço como uma mulher de 80 anos. É legal ver que ninguém me rotulou. Não sou a vilã, não sou a mocinha, não sou o bandido, não sou a velhinha. Uma vez o [diretor] Mario Lúcio Vaz disse exatamente isso: “A Cássia faz qualquer papel”. Achei do caralho!
Quais foram os momentos mais felizes ou mais tristes na Globo?
Momento infeliz é quando rola uma fofoca desagradável, o chamado leva e traz. Quando alguém ouve alguma coisa e passa para o outro de um jeito que não foi, quando vira fofoca maldosa. E rola mesmo, não tem como.
Você já foi alvo de fofoca?
O Pedro Paulo Rangel é um ator que eu adoro. Se me perguntavam “um ator de que você gosta?”, eu dizia: “Pedro Paulo Rangel”. Durante muito tempo foi assim. A gente fazia par romântico na novela Sabor da Paixão e da noite para o dia ele deixou de falar comigo. Até hoje não fala. E eu nunca soube por quê. Podia ter chegado pra ele e dito: “Preciso saber o que foi que aconteceu. Uma pessoa não deixa de falar com a outra de uma hora para outra”. Mas, como não via razão para aquilo, a única coisa que passa na minha cabeça é alguma fofoca. É uma pulga atrás da orelha que anda comigo até hoje.
E vocês continuaram contracenando como par romântico mesmo sem se falar?
Continuamos. Você não sabe o que é uma pessoa deixar de falar com você de hoje para amanhã. Trabalhando com você, fazendo par romântico. Como se não bastasse tinha a questão do transtorno. Isso me enlouquece. Quem sabe um dia não encontro com o Pedro Paulo, velhinha, e ele me conte. A gente se encontra um dia, as pessoas mudam.
Pergunta que não quer calar: quem matou Odete Roithman?
Cássia Kiss [risos].
Quarta-feira, Dezembro 09, 2009
You say T.O.M.A.T.O
De entrada um Spaghetti à Bolonhesa, fruto de uma recente mistura entre Modeselektor + Apparat, o Moderat. Repare no fogão com cara de pick-up e no tomate gêmeo, amante de um tomate solitário. Fuck, fuck, fuck. Em seguida, uma marmita de 1997 com pitadas de LSD, direto de um cardápio que eu adoro, o disco Homework, Daft Punk. Enjoy.
De entrada, Spaghetti à Bolonhesa por Moderat: http://www.youtube.com/watch?v=K9-UByFZ8uQ
Prato principal, tomate com LSD por Daft Punk: http://www.vimeo.com/6211790
De entrada, Spaghetti à Bolonhesa por Moderat: http://www.youtube.com/watch?v=K9-UByFZ8uQ
Prato principal, tomate com LSD por Daft Punk: http://www.vimeo.com/6211790
daft punk - revolution 909 from joudry on Vimeo.
Quinta-feira, Dezembro 03, 2009
Na lápide, um iate
Foi na loja de artes da Livraria Cultura que conheci Anike Laurita. Lá, descobrimos Hundertwasser. Um austríaco artista, m-o-r-t-o de infarto em alto-mar. Defensor do meio ambiente, além de pinturas ele criava projetos arquitetônicos em linhas orgânicas, nada retas. Condenava a arquitetura funcional, essa coisa de Bauhaus. Foi morar na Nova Zelândia junto com a natureza e, coitado, morreu num cruzeiro, no ano 2000.Aos finais de semana, quando deixa a vida de produtora, Anike Laurita (quase um anagrama de Luara Anic) abre uma página do livro do Hundertwasser, escolhe um desenho e, a partir disso, começa a rabiscar um tênis Iate. O modelo do sapato, Iate, não foi uma homenagem ao austríaco morto num barco. Coincidência, apenas. As ilustras são feitas à mão e o par custa R$150. Escreve pra ela nessas épocas natalinas: anikelaurita@gmail.com
"The 30 Day Fax". Friedensreich Hundertwasser, 1994Segunda-feira, Novembro 23, 2009
Grudou?
Japoneses estão invadindo meu computador. Daito Manabe, sobre quem falei dois posts abaixo, está no Brasil. O artista, dj, vj, hacker e matemático vai se apresentar a partir de hoje na II Mostra Live Cinema, no Sesc Pompeia.
Aqui, a programação completa e quem mais participa. De 24 a 29 de novembro no Sesc Pompeia. Hoje é grátis!
Acima, Daito.
Aqui, a programação completa e quem mais participa. De 24 a 29 de novembro no Sesc Pompeia. Hoje é grátis!
Acima, Daito.Domingo, Novembro 22, 2009
No feriado, dancei.
Sexta-feira dancei. Nada de feriado cheio de ócio, mas oito horas de luz branca bombando na cabeça. Para animar, assisti vídeos com passos fabulosos. No próximo baile, espero usá-los. Tem a dupla de dançarinos Al and Leon requebrando ao som de Daft Punk (isso antes do House existir). O já famoso Techno Viking na Fuck Parade de Berlim e, o melhor, mexicanos e seus passos de amor: "um rayo de sol, uh-uh-uh, me trajo tu amor, uh-uh-uh".
(agradeço por animarem a minha labuta de sexta: Nataly Cabanas, estrela de cinema, e Cae Carvalho, artista internacional)
Al and Leon: http://www.youtube.com/watch?v=339ixMtHrVk
Techno Viking: http://www.youtube.com/watch?v=DqaW15tnbcw&feature=player_embedded
Baile Nuevo: http://www.youtube.com/watch?v=F64Q4u-RvvU&feature=player_embedded
(agradeço por animarem a minha labuta de sexta: Nataly Cabanas, estrela de cinema, e Cae Carvalho, artista internacional)
Al and Leon: http://www.youtube.com/watch?v=339ixMtHrVk
Techno Viking: http://www.youtube.com/watch?v=DqaW15tnbcw&feature=player_embedded
Baile Nuevo: http://www.youtube.com/watch?v=F64Q4u-RvvU&feature=player_embedded
Quinta-feira, Novembro 19, 2009
Pisca-pisca
Angela Bismarck faz uma plastiqueta e fica com os olhos puxados. Isso faz um ano, mas chamariam de body art se ela não fosse rainha da bateria. Eu, covarde, não ouso pintar as madeixas de preto, mas aprecio as inspirações orientais de Angela. Tanto que ontem, por indicação do PB, assisti True, um espetáculo japa. Dizem que é dança contemporânea, mas aquilo é quase uma viagem psicodélica. Durante a apresentação parece que você foi abduzido há horas, quando acaba, é como se acordasse de uma piscadela. Isso porque artistas, músicos e dançarinos montaram uma performance extremamente sensorial. Entre eles está Daito Manabe, artista, dj, vj, matemático e graduado pela IAMAS (International Academy of Media Arts and Science). Abaixo, um trabalho em que ele faz música a partir de sensores presos ao seu rosto. Em True, dançarinos também tem sensores atados ao corpo e controlam um jogo de luz e música eletrônica.
sesc pinheiros - Hoje, 19/11, às 21h. R$ 15,00 [inteira]/ R$ 7,50 [usuário matriculado no SESC]/ R$ 3,50 [trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC ] / www.true.gr.jp
True: http://www.youtube.com/watch?v=xYYFTzGfPiw
Daito Manabe: http://www.youtube.com/watch?v=YxdlYFCp5Ic&feature=player_embedded
sesc pinheiros - Hoje, 19/11, às 21h. R$ 15,00 [inteira]/ R$ 7,50 [usuário matriculado no SESC]/ R$ 3,50 [trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC ] / www.true.gr.jp
True: http://www.youtube.com/watch?v=xYYFTzGfPiw
Daito Manabe: http://www.youtube.com/watch?v=YxdlYFCp5Ic&feature=player_embedded
Quinta-feira, Novembro 12, 2009
Houxo ou Roxo?
Que Houxo é um artista japa que pinta com tinta flúor na luz roxa. Já pintou seu corpo de canetinha marca texto fluorescente e foi para um club? O trabalho dele é quase isso. Depois do post com os vídeos dos japoneses correndo em câmera lenta, do produtor de Hip-Hop e DJ japonês Jujabes, vale ver a performance desse artista clubber/trance dos anos 2000.


A performance 1: http://www.youtube.com/watch?v=5pxtzdKL_Bg&feature=player_embedded


A performance 1: http://www.youtube.com/watch?v=5pxtzdKL_Bg&feature=player_embedded
Segunda-feira, Novembro 02, 2009
Ellen Allien na minha casa

Da última vez que Ellen Allien esteve no Brasil, há uns três anos, Cae Carvalho mandou um e-mail pra os amigos dizendo: "Ellen Allien vai tocar na minha casa". Depois de um monte de respostas "Sério?", "Really?", "Eu vou!", escreveu para o selo da moça, o berlinense BPitch Control. Mas Ellen Alien não apareceu na rua Capote Valente. Batemos na porta do D-edge para tentar vê-la. Fila, fura-fila, tietes disfarçados, uma lástima. Não assistimos, lógico.
Quem sabe agora que ela já é meio démodé seja mais fácil ouvir seu set. Ou também podemos fazer pouco caso já que ela não apareceu na festa.
Abaixo, a turnê de três semanas na América Latina:
NOV 5, 2009 URUGUAY MONTEVIDEO KEY CLUB
NOV 6, 2009 BRASIL RIO DE JANEIRO MOO CLUB
NOV 7, 2009 ARGENTINA BUENOS AIRES CREAMFIELDS
NOV 13, 2009 BRASIL BELO HORIZONTE DEPUTAMADRE
NOV 14, 2009 BRASIL SAO PAULO XXXPERIENCE NOV 17, 2009 BRASIL SAO PAULO D-EDGE
NOV 20, 2009 COLOMBIA BOGOTA TBA
NOV 21, 2009 COLOMBIA MEDELLIN CARNAVAL

O single lançado em setembro, Lover (acima), não tem nada de novo e está no Myspace. Aqui, um clipe do penúltimo disco, Sool (2008); e "Way out", do disco Orchestra of Bubbles (2006). Aliás, esse disco, ao lado do Berlinnete (2003), são os melhores.
Domingo, Novembro 01, 2009
Você é feia?

Olhe bem para Hebe Camargo. Ela não é exatamente uma Gisele Bündchen. Nem poderíamos exigir tanto da apresentadora octogenária. Mas Hebe Camargo, com suas madeixas louras, seus diamantes de infinitos quilates e os figurinos muito bem assinados, tem boa aparência. Com as devidas “proporções”, qualidade tão citada nos classificados dos jornais. Exige-se boa aparência para recepcionistas, babás e por aí vai. O mesmo não acontece com motoristas e porteiros. Basicamente porque mulher, mesmo se for competente, precisa ser bonita. E homens, bem, até os mais feios são considerados, no mínimo, interessantes.
Atualmente, enquanto a mulher se torna “velha” e “feia”, homens nem tão bonitos nem tão jovens ganham compensações como “calvo, porém charmoso”, “barrigudo, mas sexy”. O músico Marcelo Camelo e o ator Adrien Brody são os reis dos feios-bonitos. Numa eleição informal (leia box), eles ganharam a briga. Se aplicados os mesmos critérios usados para eleger uma mulher bonita, eles estariam longe do título de semideuses. Um bom exemplo para essa diferença no olhar está mensalmente nas páginas desta revista. Dos 182 ensaios femininos realizados pela Trip (irmã mais velha da Tpm) em 23 anos, apenas oito mulheres tinham mais de 30 anos. Em contraponto, 80% dos ensaios masculinos feitos pela Tpm em oito anos de revista foram com homens que já tinham completado três décadas – ou mais.
Seja mulher, seja bonita!
Não ouvimos um “eu sou feia” ao entrevistar mulheres consideradas exóticas, ou fora dos padrões, como por exemplo a cantora e modelo Geanine Marques, musa do estilista Alexandre Herchcovitch. Difícil. Ao mesmo tempo, foi facílimo ouvir a sentença de dois homens feios, porém charmosos, inteligentes. O músico Wander Wildner, 50, autor do disco Eu Sou Feio. mas Sou Bonito!, acredita na beleza além da estética. “Sou feio segundo os padrões, mas me acho lindo!” Para ele, não existe mulher feia. “As pessoas se deixam levar por um conceito de beleza que é pura enganação”, garante. Em uma das canções do disco, o gaúcho faz uma ode ao direito de ser banguelo por fora e elegante por dentro: “Carrego dentro de mim a fina estampa, que os meus tortos dentes não mostram. (.) Não vou gastar meu dinheiro no dentista pra te agradar, não vou colocar dentadura postiça só pra te conquistar”.
Jorge Espírito-Santo, 46, gerente artístico do GNT e conhecido por estar sempre acompanhado de belas mulheres, também não tem medo de assumir a feiura – ou o charme. Para ele também não existe mulher feia, “no fundo, quem está se achando feia anda mal-amada, mal arrumada e com problema de autoestima”, escreve no texto ao lado. A historiadora Mary Del Priore, autora de Corpo a Corpo com a Mulher, acredita que a tolerância feminina à feiura tem a ver com uma questão demográfica. “No Brasil nós temos um número maior de mulheres do que de homens. E, quando você tem dez mulheres para um homem, se esse homem é feio ou bonito não faz tanta diferença”, acredita. A psicanalista Joana de Vilhena Novaes estuda a relação da mulher com a beleza – ou a falta dela – há mais de dez anos. Coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza, da PUC-Rio, ela sentencia: “Para a mulher, ser feia é o que há de pior. É estar totalmente fora do páreo”. Para o homem, essa não é a principal questão. “Sou feio, mas conquisto. Tenho humor, inteligência e charme.”
A partir da visão simplista de que ser magra e bela está ao alcance de todos, a censura aos que estão fora desse padrão passa a ser um preconceito socialmente aceito. Desde pequena você já sabe: “Não se nasce mulher, se aprende a ser mulher”. Sua mãe, indiretamente, parafraseou Simone de Beauvoir enquanto te presenteava com uma maquiagem de brinquedo ou com uma Barbie – representação absoluta do que é ser bela, leia-se magra, esguia e loira.
Desde sempre, mulher é sinônimo de beleza. E, se você é feia, deixou um pouco de ser mulher. Parece até que a natureza não tem nada a ver com isso. E que ter olhos azuis, enfim, é uma questão de escolha. “O mérito atribuído à beleza tornou-se um dever moral. O fracasso não se deve mais a uma impossibilidade mais ampla, mas a uma incapacidade individual”, escreve Joana de Vilhena Novaes em seu livro O Intolerável Peso da Feiura. “Na mulher qualquer desleixo com a aparência é visto como incompetência. A feia é menos mulher, é como se faltasse alguma coisa. Faz parte do feminino aprender a ser bonita, a se cuidar”, completa.
O chavão “toda mulher gosta de se sentir bonita” não é nenhuma mentira. E o questionável, aqui, não é o prazer de cuidar da aparência – e sim quanto isso se tornou uma obrigação e, entre outras coisas, a causa direta de inúmeras doenças ligadas à imagem. Afinal, o modelo de beleza é único. E, se todo mundo pode ser bonita, magra e jovem se assim o quiser, por que o número de anoréxicas, obesas e insatisfeitas com a própria imagem não para de crescer?
Quando Astrid Fontenelle ainda estava na MTV, em meados de 1990, viu de perto uma mudança no padrão de beleza das apresentadoras. Os castings passaram a buscar meninas bonitas com alguma inteligência e certo charme. Astrid sempre soube não ser uma mulher linda. Sabia que era bonita, mas não dentro daquele padrão. “Vendo essa mudança acontecer, trabalhei para ser a mais carismática e inteligente do pedaço”, lembra. O que não quer dizer que a apresentadora não tenha se dobrado a alguns padrões da televisão. Ao longo dos anos, deixou os cabelos mais claros e lisos e ainda botou um aparelho dentário. “Cansei de ser só a mais inteligente. Aprendi a não ter medo de tentar ser mais bonita. Não pra parecer falsa ou mais jovem, mas pra me sentir melhor”, conta.
A ex-jogadora de basquete Hortência é um caso clássico de quem trabalhou para ficar mais bonita. Uma das melhores de sua geração, se sente mais bonita agora do que na época em que arrasava nas quadras. “Nunca precisei da minha beleza pra me sentir bem ou confiante. Era sempre elogiada pela minha atuação no esporte. Mas hoje tenho mais tempo pra me cuidar.” Hortência revela que nunca fez plástica no rosto e visita a academia todos os dias. “Não sou neurótica, mas o meu dia só começa depois da ginástica.”
Antes de a indústria cinematográfica dar as cartas, ou seja, decretar o que é “uma linda mulher”, a literatura não definia exatamente tal coisa. Falava-se da elegância, da postura, das joias e das roupas, mas não ficava claro se os personagens eram loiros ou morenos, gordos ou magros. O máximo a que se chegava eram aos “pés e mãos pequenos”, das personagens de José de Alencar, e aos “olhos de ressaca” (que não se sabe exatamente o que significam), da Capitu de Machado de Assis. “A elegância feminina era sinônimo de beleza, então não havia essa obsessão por um padrão único. À medida que somos bombardeados por imagens, com o aparecimento das grandes divas do cinema, esses paradigmas vão se consolidando”, explica Mary Del Priore. Ou seja, quando se define o que é bonito, automaticamente tudo que é oposto passa a ser considerado feio.
Hebe Camargo está bem colocada no padrão “loira” e Gisele Bündchen no “alta e magra”. “Eleger mulheres louras como belas não deixa de ser masoquista. É uma loucura um país formado por crianças afrodescendentes ter animadoras de programas infantis que sejam 100% louras. Imagine o efeito que isso faz na autoestima dessas crianças”, finaliza Mary. Não só na autoestima de crianças e jovens, como na de mulheres que só enxergam beleza no que está nas capas da maioria das revistas.
É dos feios que elas gostam mais!
O nariz é grande e com cravos, a barriga saliente e as olheiras escorregam até o pescoço. Alguns têm barriga e orelha de abano. Mas são tão lindos. Não exatamente pela aparência, mas pelo olhar, inteligência, pelo jeito como dão uma coçadinha, de leve, na barba por fazer. Inspirada pelos feios mais lindos do planeta, Tpm fez um concurso informal para eleger homens que têm uma feiura cheia de poréns. O vencedor internacional foi o narigudo Adrien Brody, ganhador do Oscar em 2003 por sua atuação em O Pianista. No Brasil, Marcelo Camelo foi o mais citado. “Nunca me achei feio, assim feião, sabe? Todo mundo acostuma com a própria aparência e tende a se achar normal, nem bonito nem feio. Eu sou meio diferentão, mas sempre achei minha graça”, diz o músico, ex-vocalista e guitarrista da banda Los Hermanos. O ator José Wilker, também citado pelas leitoras que já passaram dos 30, sabe que beleza está além de um rosto bonito: “Talvez eu tenha sido eleito pelas coisas que falo, não pela minha beleza”, palpita.
Os mais citados no concurso de feios, porém bonitos:
Da esq. para a dir.,Adrien Brody, Thom Yorke, Serge Gainsbourg, Mick Jagger, Nicolas Cage, Selton Mello, Sean Penn, Marcelo Camelo, Javier Bardem, Wagner Moura.
Texto publicado na edição #92 da revista Tpm, a Trip para Mulher
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