Sábado, Junho 28, 2008
Quarta-feira, Junho 25, 2008
Porto Alegre sobre rodinhas
No último final de semana desembarquei em Porto Alegre, num frio lascado de nove graus, que mais parecia cinco! Fui conhecer Grazi, skatista nas horas vagas e enfermeira na maior parte do tempo. Deslizamos na pista do Parque da Marinha, uma das antigas do Brasil, e na Swell (http://www.swellskate.com.br/). A Swell é uma pista que faz sucesso desde década de 70, quando virou o quintal de casa de um grupo de jovens skatistas que sonhavam com piscinas californianas. Lá na gringa, banheiras vazias, e gigantes, serviam de base para surfistas que criaram uma forma de surfar no concreto. Bem no clima do imperdível documentário Dogtown and Z-Boyz (2001), dirigido por Stacy Peralta e narrado por Sean Penn. A matéria você lê na revista Tpm - Trip para Mulher de setembro.

Renatão na pista antiga da Swell
Sexta-feira, Maio 16, 2008
Mulher invisível
Durante quarenta anos o professor universitário Luciano sentiu que estava no lugar errado: uma mulher no corpo de homem. Com a ajuda de hormônios, cirurgias e salto alto, prepara-se, enfim, para ser Luciana

Por Luara Calvi Anic Fotos: Kiko Ferrite
Não se deixe enganar pelo vestido, bolsa e cabelo comprido. Este cara que você vê atravessando a rua é o Luciano*. Ele é professor numa das mais respeitadas universidades de São Paulo. Fez doutorado no exterior, mestrado e pós-doutorado no Brasil. Apresentou pesquisa em Cambridge, na Inglaterra. E foi por mulheres que sempre se apaixonou. Com uma delas perdeu a virgindade aos 17 anos: “Conheci uma mulher num restaurante e fui agarrado por ela”. Aos 40, porém, idade em que – no geral – se alcança certa estabilidade, ele mudou de idéia.“Tenho uma condição chamada transexualismo e, ano passado, depois de muita análise, resolvi que era hora de encarar quem eu sou – e o mundo.” Luciano decidiu: vai transformar seu pênis em uma vagina, em junho.Não, ele não é gay nem travesti. Ele é mulher, mas nasceu no corpo errado [leia box]. O que não quer dizer que agora vá se desinteressar por vaginas alheias. “Vão dizer que sou lésbica, porque sempre me apaixonei por mulheres, mas tudo bem. E, se eu me apaixonar por um cara, tudo bem também. Não amo um pau e não odeio um pau.” É como se Luciano tivesse certeza – e ele tem – de que é uma mulher, mas quando olha para o seu corpo depara com pêlos, pênis e barba. Agora ele está aprendendo a se comportar como mulher: levou um susto quando acordou, depois de uma cirurgia plástica, com um par de peitos sobre seu corpo, está treinando o timbre de sua voz e acredita que na pré-injeção de hormônio – que toma a cada dez dias – sinta uma irritação semelhante à TPM.
Prazer, eu sou Luciano(a)
Conheci Luciano há cinco anos, em uma cafeteria de São Paulo. Estava lendo jornal quando um homem loiro, alto, bonito e com a barba por fazer me pediu um caderno emprestado. Não viramos amigos, mas, vez por outra, no mesmo café, nos encontrávamos, falávamos da vida. Ou melhor, eu falava. Luciano era excepcionalmente tímido. Eu até me perguntava: “Será que esse cara é só simpático ou ele está me cantando?!”. Então, no dia da entrevista que você lerá a seguir, perguntei na lata: “Naquela época você estava me cantando?”. E ele, com um decote de deixar qualquer peituda de nascença no chinelo, respondeu: “Mas é claro que estava! Fiquei na minha depois que você me disse a sua idade”. Eu não chegava aos 20, e Luciano estava na casa dos 35.Depois de um tempo sem vê-lo, no ano passado o encontrei por acaso caminhando pela avenida Paulista. Bem mais magro, sobrancelha feita, cabelo na altura do ombro e “peitinhos de adolescente”, como ele mesmo disse. Até que um dia recebi um e-mail em que ele dizia que estava tomando hormônios, passando por um processo de mudança de sexo. Como agora ele já tem peitos tamanho 44, glúteos e nariz novos, mudemos o gênero, assim como Luciana também já reeducou sua gramática. Ainda que se atrapalhe um pouco para usar “o” ou “a” quando fala da época em que era um menino e um homem “de barba bonita”, como dizia sua avó.
Tpm. Você é homem ou mulher?
Luciana. Eu me senti sempre mulher, aprendi a ser homem e agora estou aprendendo a me comportar como mulher. Como você aprendeu desde criança. Se você tivesse sido criada num mundo selvagem, seria diferente. Mas não ia se sentir mais mulher ou menos mulher por causa disso. Por exemplo, sempre odiei ter pêlos. Uma vez não agüentava mais ter pêlos nas pernas, então depilei. Daí mostrei pra minha namorada e ela ficou possessa, muito brava mesmo. Ela odiou. Está vendo, ela queria um homem.
Quando você percebeu que era diferente?
Lá pelos 8 anos. Lembro a primeira vez que pensei: “Na verdade, eu sou uma menina”. Na época, assisti a um filme em que as crianças podiam se transformar em adultos. As meninas escolhiam ser mulheres lindas e os meninos, homens fortes. Eu não me conformava com os meninos perdendo aquela oportunidade de se transformar em mulheres! E, antes de dormir, sempre pedia a Deus para acordar menina.
E gostava de meninas?
Ao mesmo tempo que me apaixonava, queria ser como elas. Isso era bem confuso na minha cabeça. E pensava: “Quando eu tiver 20 anos paro de pensar nisso”. Acontece que não parei.
E se vestia como elas?
Sempre que tinha chance usava roupas da minha mãe ou das minhas primas. Minha mãe tinha uma loja de roupas, e eu sonhava com o dia que ficaria presa lá dentro para poder usar tudo. A primeira vez que comprei uma calcinha, por exemplo, deve ter sido aos 14 anos. Foi ótimo, mas eu morria de medo que as pessoas descobrissem.
O novo órgão sexual de Luciana custará R$ 22 mil, pagos em duas vezes: a primeira em cash e a segunda com um cheque pra 30 dias. (Em 2007, o Supremo Tribunal Federal suspendeu decisão que obrigava o SUS a realizar a cirurgia gratuitamente. Não existe plano de saúde que cubra o procedimento.) Ela já gastou cerca de R$ 15 mil com seios, glúteos e uma plástica no nariz. O cirurgião plástico Jalma Jurado é quem dará à luz novamente Luciana, como ela mesma acredita: “Como vou nascer de novo, espero que minha mãe acompanhe a cirurgia”. Jurado, 70, mais de 500 transgenitalizações no currículo, colaborou na criação de normas que autorizam a cirurgia – que até 1997 ainda podia ser considerada crime de mutilação (nesse ano, Trip acompanhou a primeira operação legal de mudança de sexo no Brasil). Em dois meses, Luciana estará liberada para perder a virgindade pela segunda vez na vida – mas agora como mulher.
Como era o sexo antes, como homem?
Em alguns momentos, como no fim da adolescência, acho que tinha muito hormônio no sangue, mas nos últimos 15 anos transava bem mais para ser aceito. Sexo não é fundamental pra mim, já me realizei muito mais em uma troca de carinho com alguém do que no sexo propriamente dito. Sentia meu órgão sexual errado.
Você acha que agora, como mulher, sua vida sexual vai melhorar?
Sempre me apaixonei por mulheres, mas fazer sexo na posição de homem não me agrada. Nunca me apaixonei por um cara, até tenho fantasias sexuais com homens. Não tenho ojeriza a penetração. Se uma mulher quiser me penetrar, tudo bem. Meu problema é meu corpo, minha posição na sociedade, minha identificação sexual. Nunca foi por quem eu me apaixonei.
Você já ficou com algum homem?
Eu tentei, mas foi só sexo. Nada além de sexo... Gostei da sensação de estar na posição da mulher, isso me fez bem. Agora o cara em si não me disse absolutamente nada. Não senti aquela vontade de dormir abraçada com ele.
Como foi a primeira vez que você saiu de mulher?
Em uma boate que eu gostava bastante, no exterior. Foi muito tenso porque eu estava com medo de ser motivo de piada ou gozação. No início da transformação, em São Paulo, só me vestia como mulher à noite. Aos poucos fui saindo durante o dia também, usando uma ou outra peça feminina, mas ficava constrangida. Agora é supernormal.
Em frente ao prédio de Luciana, Freddie Mercury arrasa no telão de um bar. De bigodinho e calça apertada. “We Are the Champions” é trilha sonora para alguém em busca de identidade.No apartamento, meia dúzia de móveis, um sofá de dois lugares com um lençol branco por cima, cadeira de balanço, chão de taco e uma gata magrela chamada Gata. Um lar de alguém que parece nunca estar em casa. Nada puxa os olhos, a não ser a vista lá fora: um teco do Masp e a Paulista.Durante todo esse tempo Luciana fez de tudo para não deixar escapar sequer um resquício de identidade – nem na sua casa, nem para as pessoas que a rodeavam. Mantinha um segredo, não fazia amigos pra não ser revelada. Carregou uma pendência que começa a aparecer no banheiro – o único lugar da casa que parece ter mais personalidade: maquiagens espalhadas, creme anti-rugas, brincos e secador de cabelo. Está tudo lá, tomando conta do espaço, como alguém que aos poucos vai se mostrando para o mundo e para si mesma.
O que mudou na sua rotina com essas transformações?
Quando homem teve uma época que eu me sentia muito só, então gostava de sair e ver gente. Tinha aquela ilusão: “Vou sair e encontrar a pessoa que vai me entender no mundo”. Mas enchi o saco. Então fiquei muito tempo isolada. Tinha amigos, mas não os procurava, não aprofundava minhas relações. Tudo pra esconder o que eu sentia. Sempre me senti um pária social, e agora mais ainda.
Como você conversou sobre essa mudança na universidade em que dá aulas?
Apresentei o laudo médico [necessário para que a cirurgia possa ser realizada e Luciana possa trocar de nome legalmente], o reitor me deu os parabéns pela coragem e conversou com a diretoria. Eles tiraram uma das aulas, e estou usando um jaleco para esconder os seios. O professor que me indicou na faculdade não me cumprimenta mais e me excluiu de um grupo de pesquisa, ele disse que deveria tê-lo avisado antes.
Nos seus 1,78 metro e manequim 38, Luciana chama a atenção quando entra num restaurante. Os clientes olham curiosos, e ela faz que não liga. “Não quero que me notem, quero ser uma pessoa como qualquer outra. Sou uma pessoa como qualquer outra, só estou no corpo errado.”Anda perfeitamente numa bota preta de salto agulha: “É que treino faz tempo”. Veste calça jeans e camiseta feminina. Os olhos, que no começo da conversa desviam sem parar do olhar da repórter, têm rímel e delineador levemente borrados, denunciando pouca experiência na arte do make-up. Minhas seguidas confusões na hora de usar o masculino ou feminino resultam num chute delicado por baixo da mesa: “Sou ela, não ele!”.
Qual foi a reação dos seus pais?
Quando contei minha mãe chorou muito. Mas depois senti que ela estava tentando dizer “a culpa não é minha”. Pareceu estar mais preocupada com ela mesma. Meu pai me deu uma revista espírita sobre “as causas do homossexualismo”.Expliquei que não sou gay. Hoje sinto um apoio maior deles.
Qual é a felicidade extrema para você?
Hoje, a felicidade extrema é as pessoas me tomarem diretamente por mulher. Estava em um bar e um cara estava me olhando e começou a puxar conversa. Não tive nada com ele, mas gostei da situação.
Você tem medo de se arrepender?
Sempre tive uma depressão profunda por causa disso. Quero acordar de manhã e ser a Luciana. Não ir a um clube de travesti, acordar e ter que sair como Luciano, pai de família. E outra, porque vou ser homem o resto da vida se posso viver como mulher um pedaço dela? Acho que todo mundo devia fazer isso... O mundo ia ser muito mais harmonioso, te garanto [risos].
COMO ASSIM?
Alexandre Saadeh, psiquiatra do HCMUSP, responsável pelo atendimento a transexuais e professor da PUC-SP, explica a transgenitalização, cirurgia que transforma o pênis em vagina
Tpm.
O que é ser transexual?
Alexandre Saadeh. Uma coisa é a identidade sexual – se saber homem ou mulher – e outra é o desejo direcionado para um homem ou para uma mulher. Seu desejo independe da sua identidade sexual. O transexualismo é uma questão de identidade sexual, de você não ser o que seu corpo diz que você é. Uma idéia de “eu nasci errado, esse corpo não me pertence”.
Depois da cirurgia, o transexual vai ter mesmo um novo sexo? No papel social, sim. Mas é um processo pra vida inteira. Vai estar mais tranqüilo com o corpo. A cirurgia é importante, mas não é solução, não é resolutiva.
E o fato de Luciana sempre ter tido relacionamentos com mulheres e mesmo assim optar pela cirurgia? Isso é uma coisa rara aqui no Brasil. Nos Estados Unidos e Europa, os casos de trans-homossexuais – aqueles que mesmo depois da transformação vão buscar alguém do mesmo gênero – são mais comuns. As pessoas não entendem por que ele vai buscar a transformação física se gosta de mulher, acham que tem que continuar como está. Mas, como já disse, uma coisa é a identidade sexual e outra é o desejo direcionado para um homem ou para uma mulher.
Como é a cirurgia? É uma técnica teoricamente simples: você esvazia o pênis e o inverte, põe o pênis pra dentro. Então não é arrancar o pênis, mas transformá-lo em uma vagina. Depois que os pêlos nascem, a vagina fica muito próxima de uma verdadeira. Como as glândulas da uretra são preservadas, elas continuam secretando o líquido lubrificante. Então na penetração pode existir prazer e até lubrificação.
* Luciana é um nome fictícioQuinta-feira, Maio 08, 2008
Da Zona Lost para o mundo
Dia desses, um amiga da época da escola, e não do colégio, me disse que um amigo nosso virou dono de uma dessas lojas. Será que é complexo pelo nome do bairro? Essa coisa de "tatu a pé", de andar a pé, de repente causa um constrangimento nos que aqui moram. Em mim não, por isso, prefiro mesmo o meu veículo de assentos laranjas e que só anda reto. Às vezes ele é extremamente cheio, a ponto de "levantou o pé, perdeu lugar". Sim, o pé, se sai do chão, corre o risco de não voltar. Tem que ficar no ar, ou sobre outro pé. Tem jeito, não. Às vezes, por outro lado, o metrô é tão vazio quanto um trem europeu. E nosso trem é "made in Espanha", não? Deve ter a ver. Outro dia, numa festa, uma jornalista espanhola e simpática disse que sentiu um dejà vu quando pisou num trem paulistano. Achei confortável pensar que se um dia eu mudasse pra Espanha - apesar de não pensar em mudar pra Espanha -, sentiria um dejà vu, assim como a moça jornalista e simpática
Da Zona Lost para o mundo, é de metrô que vou continuar indo. Já vem lustrado, tem cadeiras laranjas lembrando o nome desse blog e, às vezes, basta tirar o pé do chão pra se sentir se não nas nuvens, presa numa toca de coelho de Alice no País das Maravilhas.
Quarta-feira, Abril 23, 2008
Velhinhos suicidas
Texto publicado no site da revista Tpm - Trip para Mulher - www.revistatpm.com.br
Terça-feira, Abril 08, 2008
Transexuais de Sucesso
http://ai.eecs.umich.edu/people/conway/TSsuccesses/TSgallery1.html
* Para próxima edição da Tpm - Trip para Mulher, escrevi um perfil de Luciano, pós-doutor e professor universitário em uma das mais conceituadas faculdades do país. Em Junho, ele vira Luciana.
Comprem a revista, né? Mas, tá. Eu passo o link aqui também.
Sábado, Março 29, 2008
Melhor dança da vida
FOTO :Bruno TettoCruel representa exatamente o que tem acontecido mundialmente em termos de música eletrônica da melhor qualidade, cenário, iluminação, figurino (um escândalo de figurino, aliás: sapatos, vestidos. Tudo!), corte de cabelos e dança contemporânea - como não podia deixar de ser. Claro, corte de cabelo também. Bailarinas com ar moderno de cabelos curtos - as madeixas não passam da altura da orelha - minuciosamente repicados e desarrumados. Todas lindas, sorridentes, sempre leves ao dançar um eletrônico que, repetidamente, começa barulhento e termina refinado - com tons clássicos e minimalistas lá no fundo. Isso, acredito, pra não deixar a platéia enlouquecida com tamanha intensidade musical. Assim como o espetáculo, que começa romântico nas roupas e nos pares - homens e mulheres parecem tentar encontrar o seu em meio a um baile - e termina com bailarinos despidos de tal figurino e mais agitados, vibrantes. Atuais, caóticos, digamos assim.
Cruel é pra ser visto não só por amantes da dança, mas por olhares curiosos sobre a música e arte atuais. (A trilha, principalmente, é tão, tão, tão perfeita! Essencial no espetáculo.)
Espero que faça sucesso lá fora, porque está no nível, senão acima, "deles" lá na Europa. E não tem nada de tupiniquim, popular, zero estereótipo brasileiro. É dança globalizada, coisa do mundo....sabe como é.
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